Matéria publicada no Portal da UOL, com a participação do médico geriatra Dr.Paulo Camiz.

A morte da estudante Petra Heleno, 18, após uma tomografia computadorizada voltou a colocar em xeque a segurança do contraste — composto químico -– injetado no paciente antes do exame para melhorar a qualidade das imagens. No caso da estudante de Campinas (a 93 km de São Paulo), o uso do contraste iodado iônico resultou em um choque anafilático – reação alérgica grave – que a levou à morte.

Petra morreu após passar por contraste em hospital em Campinas (SP)

Petra morreu após passar por contraste em hospital em Campinas (SP)

Entretanto, especialistas ouvidos peloUOL garantem que o procedimento é seguro e que o que aconteceu com Petra foi uma fatalidade. Os riscos de reações alérgicas tanto para o iodado iônico – usado para tomografia – quanto para o gadolínio – utilizado na ressonância magnética – são mínimos.

“Foi uma tragédia. O risco é próximo de uma alergia a qualquer outra coisa, como casos de pessoas que morrem ao tomar uma vacina por não saber que tem alergia ao componente dela. Ou alguém que ingere uma comida sem saber que é alérgico, ou seja, a chance de uma reação alérgica grave ao uso do contraste é mínima”, afirmou o médico Conrado Cavalcante, radiologista e consultor da Abramed (Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica).

Segundo o CBR (Colégio Brasileiro de Radiologia), com base em estudos internacionais, as reações adversas ao exame feito com iodado iônico acontecem numa proporção de 1 para cada 150 mil pacientes e, entre os que apresentam alguma reação, as mortes acontecem uma a cada 15 mil.

“Milhares de exames são feitos diariamente no mundo e os casos de morte são muito raros. Reações leves e até moderadas podem ser um pouco mais comuns, mas mesmo assim são bem difíceis. Não há motivo para pânico. O que aconteceu foi um caso isolado”, explicou Antonio Carlos Matteoni de Athayde, presidente do CBR.
Athayde afirmou que não existe nenhum teste prévio para assegurar que o paciente não terá reação ao contraste.

“Mesmo que fosse injetada uma quantidade pequena antes, não haveria como garantir porque a reação não depende da quantidade injetada. Não dá pra saber a reação do organismo quando receber o composto, independente da dosagem. Mas o contraste é bem tolerado pela grande maioria dos pacientes”, ressaltou.

Segundo ele, o que existe para tentar minimizar em caso de reação é uma dessensibilização prévia, que geralmente é feita com antialérgicos, como corticoide. Isso é mais comum quando o paciente relata quadros anteriores de alergias graves, como por exemplo, edema de glote – fechamento da garganta — ao comer camarão. “Mesmo assim, não tem como garantir que a pessoa não terá reação ao contraste”, disse.

Médico analisa necessidade do contraste

Para Paulo Camiz, professor de clínica geral do Hospital das Clínicas de São Paulo, o mais importante é que o médico avalie caso a caso a necessidade do exame e do uso do contraste. “O médico, que geralmente já tem o histórico do paciente, deve avaliar a necessidade do exame e do contraste porque cada caso é um caso”, ressaltou.

O contraste é usado para destacar determinadas partes do organismo, como coração, fígado e tecidos moles. “Quando recomendado, o uso do composto é determinante para o diagnóstico preciso”, comentou.

Porém, segundo ele, alguns grupos são considerados de risco e devem evitar o uso de contraste, como pessoas que já tiveram uma reação branda em um procedimento anterior, pacientes que já têm predisposição a reações alérgicas graves e indivíduos com asma.

“Mesmo o risco de uma reação que leve a morte sendo muito baixo, é realmente importante que o médico avalie todos esses fatores até para evitar intercorrências, mesmo as mais simples”, explicou

Para Camiz, alguns fatores podem ser determinantes na hora de socorrer um paciente de uma possível reação alérgica. A clínica ou hospital precisa ter os equipamentos de emergência necessários e, na hora do exame, o paciente deve estar acompanhado por um radiologista.

“O radiologista deve estar presente durante a aplicação do contraste exatamente para saber agir em casos de intercorrências. Mas infelizmente em casos raros, mesmo com todos os cuidados, nada pode ser feito”, concluiu.

Camiz citou um estudo australiano com bases mundiais que indica que a chance de reação grave em decorrência do contraste aumenta significativamente conforme a idade do paciente.

“O estudo mostrou que em pessoas com mais de 65 anos a média é de 35 óbitos por milhão dos que usam o contraste. Já em pacientes com menos de 65 anos são registradas quatro mortes por milhão. O que é considerado um índice bem baixo”, concluiu.