Muita gente tem a ideia de que as pessoas que atingiram a terceira idade deixam de ter vida sexual, inclusive foi tema da novela das 9. De onde veio esse pensamento e até onde ele é verdadeiro?

 

O envelhecimento é normalmente caracterizado por alterações na sexualidade. Isso incluiu de uma forma geral, uma diminuição do interesse e da qualidade do desempenho das relações sexuais. Repare que diminuição não significa uma cessação completa. Isso não faz parte do envelhecimento normal e deve ter a causa investigada.

É verdade que os idosos estão ficando cada vez mais ativos, tanto nos relacionamentos quanto no sexo?

Sim. É muito comum a visita no consultório médico não necessariamente para o tratamento de doenças, mas buscando uma melhora no desempenho nas atividades de vida diária e, nesse sentido, o sexo não é exceção.

Quais as grandes diferenças de um relacionamento iniciado na terceira idade em relação a um na vida adulta?

Trata-se de uma pergunta para a qual não há uma única resposta. Cada caso é um caso e cada relacionamento é um relacionamento. Eu diria que a principal diferença está relacionada a uma maior maturidade do casal do ponto de vista emocional e também do ponto de vista de relacionamento. Paralelamente a isso se depara com a situação, às vezes conflitante de declínio progressivo da funcionalidade que se tinha quando mais jovem.

E na vida sexual?

Na vida sexual, convive-se com muitos preconceitos e “tabus” trazidos de toda uma vida, que parecem para um leigo pouco importante, mas na prática são muito reais e impactam muito na vida sexual. E, conforme foi ressaltado na questão acima, o desempenho e vigor físico diminuem e isso também se reflete na prática sexual. Gosto de dizer que um idoso que tem vida sexual ativa costuma ter uma saúde muito boa, porque implica num funcionamento minimamente bom de todos os seus sistemas fisiológicos, implica num bom equilíbrio emocional e também em situação ambiental favorável a uma boa prática. Imagine que, se para um jovem, um distúrbio mínimo em qualquer das condições supracitadas (biológica, psicológica e social), já há uma queda ou até impossibilidade na relação sexual, para o idoso o impacto de qualquer alteração, por menor que seja, é muito maior.

É importante para a saúde ter uma vida ativa sexualmente falando na terceira idade? Quais os prós e contras?

Depende da importância que o sexo tem na vida dela. Eu gosto de dizer que o sexo é um problema, se causa algum tipo de incômodo para o paciente. Se não causa, não deve ser tratado como um problema. Assim, se a falta de sexo incomoda, deve ser investigada e tratada. Se não incomoda e não causa maiores problemas em sua vida, não precisa ser tratada. Os prós e contras vão variar de acordo com a situação de cada distúrbio de sexualidade. Se a pessoa se expõe a algum tipo de doença ou se aquilo afeta negativamente o seu relacionamento, seja pela falta ou excesso de atividade sexual. Tudo deve ser individualizado. A recomendação é que sempre seja realizado com segurança.

Aliás, como lidar com falta de libido ou ereção acima dos 60 anos?

O primeiro passo é verificar se essa queixa é parte do envelhecimento normal ou não. Em não fazendo, o que é a realidade na maioria das vezes, deve-se investigar e tratar a(s) causa(s) do problema. Na grande maioria das vezes depara-se com causas tratáveis e freqüentemente, o problema não está em uma das pessoas, costumando ser algo que necessite de atuação no casal.

É preciso tomar alguns cuidados específicos para ter uma vida sexual ativa nesta idade?

Os mesmos de alguém em outra faixa etária, com a particularidade de que dada a maior prevalência de doenças nesta faixa etária, o uso de qualquer suplementação ou medicação relacionada a prática sexual deve ser realizada com o conhecimento e sob a orientação de um profissional qualificado para tal.

Quais seriam as alterações esperadas no envelhecimento normal para o homem e para a mulher em relação ao sexo?

Para as mulheres, com a queda do estrogênio após a menopausa, ocorre uma redução da lubrificação vaginal e da circulação sanguínea para a região genital. Isso implica numa necessidade de estimulação mais prolongada na fase de excitação e também numa mobilização mais gentil de toda a região genital (em especial o clitóris) para que se atinja o grau de lubrificação e excitação necessárias para uma relação satisfatória. Durante o orgasmo ocorrem contrações mais breves e menos intensas, mas a idade não implica numa ausência total de orgasmos. Muitas mulheres idosas ainda atingem orgasmos múltiplos.

Os homens, por sua vez, evoluem com manutenção do interesse sexual, apesar de uma diminuição da freqüência com que realizem. O fato é que, a maneira como eles encararam o sexo ao longo de sua vida é que costuma determinar a forma com que se comportam em relação a isso na terceira idade. Objetivamente, há uma diminuição não apenas no comportamento, mas também em relação aos estágios da relação sexual. A ereção leva mais tempo para se iniciar e a ejaculação tende a ocorrer mais tardiamente. O orgasmo tende a ser menor em intensidade e duração e o período de latência, ou período refratário (tempo que leva para estar apto a uma nova relação após ter tido uma), tende a ser mais prolongado. De qualquer forma, a disfunção erétil não faz parte do envelhecimento natural, costumando ser ocasionada ou por um problema de saúde ou por efeito adverso de algum tratamento (cirurgia de próstata, por exemplo).